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Senhor Ministro das Relações Exteriores,
Senhores Ministros,
Senhores Chefes das Missões Diplomáticas e Consulares,
Minhas Senhoras e meus Senhores,
O Ministério
das Relações Exteriores decidiu realizar esta Reunião
Metodológica num momento oportuno. A situação
do pais conheceu mudanças profundas e é necessário
que sejam feitos estudos sobre os ajustamentos a efectuar na nossa
política interna e internacional.
Depois
de termos vivido décadas de um conflito militar que condicionou
sobremaneira o nosso desenvolvimento e o regular funcionamento das
instituições do Estado, alcançámos finalmente
a paz e podemos começar a perspectivar a vida do nosso pais
noutros moldes.
Consolidar
a paz e resolver com celeridade e firmeza as consequências
imediatas da guerra é a nossa principal prioridade. Isto
significa cumprir integralmente o Memorandum de Entendimento Militar
entre as Forças Armadas Angolanas e as Forças Militares
da UNITA e concluir as tarefas inacabadas do Protocolo de Lusaka.
Significa
igualmente equacionar a situação dos desmobilizados,
órfãos e outras vítimas de guerra, com vista
a garantir a sua reintegração social e orientar e
organizar o regresso dos cerca de 4 milhões de deslocados
às suas zonas de origem.
São
tarefas complexas e gigantescas que requerem a participação
de todos e não apenas do Governo. Este dispendeu já
esforços e verbas consideráveis, mas o pais necessita
de grande apoio da Comunidade Internacional, a fim de fazer face
à situação humanitária difícil
em que se encontram as populações que vêm de
áreas até aqui inacessíveis, devido a guerra.
Brevemente
será lançado um novo apelo pelo Governo aos doadores
internacionais, com o objectivo de se obter mais assistência
médica e medicamentos, bens de primeira necessidade, roupas,
tendas, agasalhos, etc..
Paralelamente
está em curso a preparação de uma Conferência
Internacional de Doadores, com o apoio de instituições
internacionais, que abordará numa primeira fase questões
ligadas à situação de emergência e, mais
tarde, se debruçará sobre o apoio a prestar ao programa
de reconstrução de Angola.
Quando
for concluída a execução das tarefas militares
do Processo de Paz pela Comissão Militar Mista, com o acompanhamento
da Organização das NaçõesUnidas e da
& 8216;troika& 8217; dos Países Observadores, a delegação
do Governo iniciará a conclusão do Protocolo de Lusaka
com uma delegação da UNITA.
Assim
que esta etapa terminar, o país voltará à situação
normal e o processo democrático conhecerá um novo
desenvolvimento. Surgirão então na agenda política
nacional outras questões importantes, como a discussão
e aprovação da Constituição, a revisão
da Lei Eleitoral, a reactivação da Comissão
Eleitoral, o recenseamento dos eleitores, a elaboração
dos cadernos eleitorais e a marcação da data para
a realização das eleições gerais abrangentes,
livres e justas.
Para
viabilizar este processo, o Governo aprovou e já está
a executar um plano de reabilitação das infra-estruturas
econ6micas e sociais, que criará as condições
para assegurar a livre circulação de pessoas e bens
e a instalação da administração do Estado
em todo o território nacional. Simultaneamente está
a conceber um plano de desminagem e vai elaborar um Programa de
Reconstrução e Desenvolvimento, de médio e
longo prazo, com o apoio de especialistas angolanos e de entidades
estrangeiras de renome, especialmente contratadas para esse efeito.
A aplicação
deste Programa conduzirá à superação
das assimetrias regionais, ao surgimento de novos postos de trabalho,
que vão permitir absorver a grande quantidade de mão
de obra desocupada, através do investimento público
e privado.
Assim
será possível gerar mais riqueza e proceder à
sua distribuição mais equitativa, de modo a que o
espectro da fome e da pobreza desapareça também progressivamente
do quotidiano dos angolanos.
O segundo
momento será mais longo, pois diz essencialmente respeito
à reconciliação nacional dos angolanos, à
superação dos seus traumas e ressentimentos causados
por décadas de guerra e de desconfianças. Ele vai
exigir o engajamento de toda a sociedade e a livre discussão
sobre as diferentes ideias e projectos de sociedade, com base na
tolerância, no respeito mútuo e no direito à
diferença.
A Assembleia
Nacional será naturalmente o lugar privilegiado para a realização
do debate político sobre todas estas matérias de capital
importância, mas estou convencido que o princípio da
auscultação a todos os segmentos da sociedade será
mantido para enriquecer esse debate e as deliberações
e decisões dos órgãos de soberania.
As
nossas Missões Diplomáticas devem dar a conhecer a
real situação que o pais vive, a fim de que não
se façam deturpações nem quaisquer aproveitamentos
de ordem política, que visem denegrir a imagem do governo
de Angola que tudo tem feito para minorar o sofrimento das populações.
Certos
círculos políticos e económicos prosseguem
algumas das campanhas que através da comunicação
social já nos eram movidas no passado, traduzindo o seu descontentamento
pelo facto do conflito armado em Angola não ter sido resolvido
no sentido ou na forma em que pretendiam e que lhes poderia eventualmente
trazer outros benefícios que seriam com certeza lesivos aos
interesses dos angolanos.
A nossa
diplomacia deve estar capaz de enfrentar todas as acusações
destituídas de fundamento e de sentido lógico que
são feitas contra as instituições do Estado
angolano.
No
mundo actual, e apesar dos processos de integração
económica ou político-econômica e da interdependência
cada vez mais acentuada entre as nações, ainda permanece
válido o conceito de soberania dos Estados e, assim sendo,
não podemos aceitar que terceiros se imiscuam nos nossos
assuntos internos ou que queiram mesmo submeter-nos à sua
vontade e aos seus interesses.
Existem
valores universais que a República de Angola, enquanto Estado
moderno e amante da paz e do progresso, respeita e pretende fazer
respeitar, de modo a poder marchar a médio prazo na mesma
cadência dos outros países mais desenvolvidos. Os valores
referentes à democracia, ao respeito pelos direitos fundamentais
dos cidadãos, à transparência e boa governação
devem de facto nortear hoje as políticas de qualquer governo
e sobretudo daqueles que pretendem vencer o atraso económico,
científico-técnico, a miséria e a fome.
A verdade,
no entanto, é que o mundo actual continua dividido, não
já entre os antigos blocos políticos e militares mas
por uma linha que separa os países que são beneficiados
pelos excelentes progressos científicos e técnicos
alcançados pela Humanidade e os que estão excluídos
desses benefícios.
A solução
desse problema deve passar pela concessão de maiores oportunidades
aos países em vias de desenvolvimento, por forma a que todos
os povos possam contribuir de maneira activa para a prosperidade
económica e compartilhar, sem exclusão, os seus frutos.
Isso
exige uma mudança de atitude da parte dos países desenvolvidos,
que não podem ignorar que a estabilidade e a paz no domínio
internacional implicam a adopção de políticas
destinadas a tornar todos os povos capazes de aceder aos meios necessários
para melhorar as suas vidas, incluindo os instrumentos e as capacidades
técnicas exigidas para o seu desenvolvimento.
A par
disso esses países devem aceitar o cancelamento ou a redução
significativa das dívidas das nações mais pobres,
a promoção da paz através do dialogo e das
negociações, o respeito e a protecção
do Meio Ambiente. Deste modo o chamado processo de globalização
começará a fazer sentido para todos os povos, permitindo
que estes ultrapassem a sua actual atitude de natural desconfiança
e receio e deixem de o encarar como se tratasse de uma nova versão
do colonialismo. Com efeito, muitos povos dos países em vias
de desenvolvimento vivem este fenómeno como uma imposição
porque não participam em pé de igualdade. Desejariam
que a globalização estivesse ao serviço dos
interesses dos povos, da solidariedade e da promoção
do desenvolvimento, do bem estar e das relações mais
justas entre as nações.
É
no sentido de relações mais justas e estáveis
entre os povos que desenvolvemos toda a nossa actividade diplomática
e estamos fortemente empenhados em encontrar uma solução
satisfatória para os diferentes conflitos de índole
militar que ainda afligem o nosso continente. Estamos particularmente
interessados em contribuir para a solução definitiva
dos conflitos internos dos países que fazem fronteira com
a República de Angola, pelos reflexos que os mesmos podem
ter no nosso processo de paz e na estabilidade do país.
Só
em condições de paz poderão os países
africanos superar os inúmeros desafios nos domínios
económico, social, cultural e político, a fim de enveredarem
pela via do crescimento e do desenvolvimento sustentado que possa
garantir o combate à pobreza e a superação
do atraso cientifico e técnico que os separa dos países
desenvolvidos.
Neste
contexto de participação activa na resolução
dos problemas que afectam as nações, Angola pretende
apresentar a sua candidatura pela África Austral para Membro
Não Permanente do Conselho de Segurança das Nações
Unidas, no período referente a 2003-2004.
Para
esse efeito devemos saber celebrar as alianças necessárias
de modo a obter os apoios de outros países O sentido da nossa
candidatura deve ser bem explicado através dos contactos
diplomáticos e, em particular, aos países com assento
permanente nesse órgão da ONU.
A nossa
diplomacia deu um contributo inestimável ao estabelecimento
da paz e à consolidação da democracia. Importa
agora ampliar essa contribuição através da
mobilização da Comunidade Internacional para o apoio
às tarefas internas imediatas já referenciadas e para
a estabilização e segurança da nossa região.
O apoio
à solução definitiva dos conflitos armados
na Repúblicas do Congo, na República Democrática
do Congo e na região dos Grandes Lagos deve permanecer na
nossa agenda.
Angola
tem uma posição geográfica privilegiada no
corredor que liga a África Central à África
Austral. O rio Zaire e o Caminho de Ferro de Benguela ligam-nos
respectivamente à África Central e ao Leste de África.
Brevemente o país assumirá a presidência da
SADC e deverá preocupar-se não apenas com a segurança,
a paz e a estabilidade dos países membros, mas também
com a criação de um mercado sub-regional efectivo,
que passa pela ligação física dos países
através de infra-estruturas rodoviárias, ferroviárias,
portuárias, de telecomunicações e do tratamento
adequado das questões relativas à moeda, aos direitos
alfandegários e à circulação de mercadorias.
Neste
sentido, importa desenvolver acções político-diplomáticas
que visem reforçar a participação do pais nestas
duas organizações e noutras organizações
regionais, continentais e do espaço lusófono. Deste
modo, tudo deve ser feito para que a próxima Cimeira dos
Chefes de Estado e de Governo da SADC, a ter lugar em Luanda, seja
um êxito e constitua um marco na afirmação económica
e política de Angola.
As
tarefas que o Ministério das Relações Exteriores
tem de realizar em tempo de paz exigem uma melhor organização
interna e também melhor preparação e superação
permanente dos seus quadros. Estes devem estar capazes de utilizar
as novas tecnologias que contribuem para a melhoria da qualidade
do trabalho administrativo e para a eficiência da actividade
política e diplomática.
Declaro
aberta esta reunião, desejando a todos um bom trabalho.
Muito
Obrigado!
Luanda,
10 de Junho de 2002
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